O mês de setembro nos convida a direcionarmos o olhar para a inclusão, de forma especial, para os direitos das pessoas com deficiência auditiva. O Setembro Azul, o Dia Internacional das Línguas de Sinais, celebrado em 23 de setembro, bem como o Dia Nacional dos Surdos, em 26 de setembro, são de suma importância para conscientizar a sociedade sobre o respeito e a valorização da comunidade surda. No meio corporativo, essas datas tendem a estimular a seguinte reflexão: nossas organizações estão, de maneira concreta, preparadas e dispostas a garantir acessibilidade para todos, sem exceção?
Quando falamos em acessibilidade corporativa estamos provocando a construção de um espaço onde o indivíduo possa exercer suas atividades em plenitude, para desenvolver seus talentos e participar ativamente das relações de trabalho com o máximo de autonomia, segurança e dignidade. A acessibilidade não deve ser tratada somente como um processo de adaptação física ou mera resposta a uma exigência legal. Ela precisa englobar também: comunicação, tecnologia, atitudes, processos e, principalmente, a cultura organizacional.
Para a comunidade de pessoas surdas, a comunicação sem ruídos e fluidos precisa ocupar um papel fundamental. Neste quesito, a utilização da Língua Brasileira de Sinais (Libras), quando necessária, o investimento na disposição de recursos de acessibilidade em reuniões, treinamentos e eventos, a presença de intérpretes e o uso de legendas diante de conteúdos audiovisuais são medidas cruciais, que podem ampliar o significado de pertencimento e participação. Porém, para além de investimento somente em recursos, tão importante quanto é conscientizar e preparar as equipes para compreender que a inclusão é uma responsabilidade de todos.
Para isso, faz-se necessário uma mudança de mentalidade, onde a organização começa a se posicionar para responder à seguinte pergunta: o que podemos fazer para que TODOS possam participar das ações e intervenções? Isso pode diminuir o senso de obrigatoriedade e estimular uma cultura de equidade. É uma mudança de pensamento que ajuda a não se tratar a inclusão como algo pontual, mas como parte integrante dos processos cotidianos da instituição.
Essa equidade integrativa significa considerar a acessibilidade em vários aspectos: no recrutamento e na seleção; na integração; nos treinamentos; nas avaliações; nas oportunidades de desenvolvimento e na comunicação interna. Significa, também, ouvir a pessoa com deficiência, adentrar ao seu mundo para compreender suas necessidades e estimulá-la a construir soluções. Afinal, não existe relacionamento sem escuta e participação, logo não há inclusão corporativa sem esses dois pilares.
A acessibilidade e a inclusão podem produzir benefícios para toda a organização. Ambientes mais acessíveis tendem a favorecer uma comunicação mais clara, ampliar a percepção, a inovação e fortalecer o engajamento. Quando uma instituição mitiga ou elimina as barreiras da diversidade, ela não beneficia somente uma pessoa ou um grupo, ela melhora a experiência de todos!
O Setembro Azul, portanto, pode ser mais que um período de conscientização, mas de ação. Um momento oportuno para todos revisarem suas condutas e identificarem barreiras que ainda bloqueiam a plena participação das pessoas surdas.
Uma organização verdadeiramente inclusiva não é aquela que apenas abre suas portas, mas aquela que trabalha continuamente para que todos possam entrar, integrar, participar, permanecer e assim fazer a diferença.
* Kelli Aparecida da Silva Pontes é psicóloga e pós-graduada em saúde mental. Atua como psicóloga clínica e organizacional na Fundação João Paulo II.
